sexta-feira, 30 de julho de 2010

Viagem a uma mina de "sal da terra"

Haveria algo mais banal que o sal na sua lista de víveres?

Em alguns lugares da Terra, obter sal é uma aventura diária, conforme demonstra o artigo  publicado pelo destemido Haroldo Castro na revista Época (disponível em http://bit.ly/avYjVw ). Então passa a fazer sentido aquele discurso de sermos o "sal da terra" (Mt 5.13), pois enquanto em algumas regiões da Terra o sal é algo banal e infelizmente chega mesmo a ser desprezado, em outras ele é digno de altos riscos e altamente desejado, porque é raro, difícil de ser obtido.

Constato que no Ocidente o sal tem sido tão banalizado, que cada vez mais as pessoas tem abandonado o sal original, optando por novas variedades de sal, que em alguns casos passam longe do sal original. É cada vez mais frequente encontrarmos novas variedades de sal nos mercados: sal diet (com menos sódio), sal com iodo, sal sem iodo, sal marinho, sal bruto, flor de sal, sal com alho, sal com pimenta, sal vitaminado (?), etc. 

Da mesma forma, assim tem sido com o "sal da terra", que deveria ser servido puro, em pequenas doses diárias, por toda a vida, até o fim da vida, mas que tem sofrido alterações na dosagem, além de adições de outros "temperos" nada saudáveis. 

Desde que Mamon passou a ter participação acionária em determinadas "salinas da terra" (leia-se: denominações religiosas e até mesmo congregações específicas dentro de denominações ditas tradicionais), o "sal da terra" tem saído de lá adulterado em sua fórmula, em quantidades cada vez mais generosas, porque espiritualmente insalubres. Algumas dessas fórmulas oferecidas por essas salinas adulteradas chegam ao ponto de só ter "sal da terra" no rótulo. 

Temos presenciado essas variações nas mesas das famílias, bem como a forma perniciosa com que essas fórmulas tem afetado a saúde espiritual dos membros dessas famílias que consomem esse sal adulterado: 
  • com fanatismo
  • com teologia da prosperidade
  • com idolatria humana (musicolatria, pastorlatria, bispolatria, apostolatria, patriarcolatria)
  • com idolatria material ou anímica (fogueiras santas, trilhas de sal, rosas ungidas, crucifixos, arcas, colunas de óleo, terra importada de Israel, mantos sagrados, etc.)
  • com religiosidade
  • com desconhecimento da Palavra
Resultado: igrejas doentes, cristãos doentes e, claro, líderes doentes, mas com os cofres abarrotados.

Atos dos Apóstolos nos relata o discurso do fariseu Gamaliel, mestre de Paulo, sobre a postura diante do que eles consideravam mais um vento de doutrina:

" Mas, levantando-se no conselho um certo fariseu, chamado Gamaliel, doutor da lei, venerado por todo o povo, mandou que por um pouco levassem para fora os apóstolos; e disse-lhes: Homens israelitas, acautelai-vos a respeito do que haveis de fazer a estes homens, porque antes destes dias levantou-se Teudas, dizendo ser alguém; a este se ajuntou o número de uns quatrocentos homens; o qual foi morto, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos e reduzidos a nada. Depois deste levantou-se Judas, o galileu, nos dias do alistamento, e levou muito povo após si; mas também este pereceu, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos. E agora digo-vos: Dai de mão a estes homens, e deixai-os, porque, se este conselho ou esta obra é de homens, se desfará, mas, se é de Deus, não podereis desfazê-la; para que não aconteça serdes também achados combatendo contra Deus." (Atos 5:34-39) 


Ainda que eu saiba que DEUS está atento a isso tudo e que nada prevalecerá, preocupa-me a vida daqueles que tem sido educados segundo essas abominações doutrinárias. É importante alertá-los sobre a consequencia desses desvios. É importante alertar também aos  homens que lideram essas abominações entre o povo de DEUS sobre as consequencias de suas escolhas, pois toda a fortuna que conseguirem amealhar nesta vida não conseguirá pagar o preço pelas almas desviadas por sua ação insidiosa. Sabemos desde já que o desvio que pregam não sobreviverá a eles mesmos, mas preocupa-me o povo que bebe das suas fontes contaminadas.

Recentemente, pregando no Congresso de Jovens da Igreja Batista Monte Hermon, na Ilha de Guaratiba (RJ), alertei aqueles jovens para o texto de João 17.12, onde Jesus Cristo, orando ao Pai, esclarece que todos aqueles que estiveram sob sua responsabilidade cumpriram o propósito de DEUS em suas vidas - até mesmo aquele que se tornou em filho da perdição (Judas Iscariotes). Ou seja, todos cumpriremos o propósito de DEUS para nossas vidas, no entanto cabe a nós escolhermos entre sermos enviados ("apóstolos", no grego) para disseminar seu evangelho às nações ou sermos filhos da perdição, com todas as  consequencias associadas a cada escolha.

Qual tem sido a sua escolha?

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A expedição “Luzes da África” terminou, mas a vontade de contar histórias sobre a jornada continua viva. Talvez seja minha maneira de esticar ainda mais essa viagem inesquecível. A cada dia que passa, me dou conta que as 50 crônicas que já escrevi representam apenas a “pontinha da duna” desse périplo – convenhamos que não dá para usar a metáfora “ponta do iceberg” na África.
Uma das experiências inesperadas na Etiópia foi a visita a uma cratera de um vulcão, no último dia de estadia no país. Chegar ao vilarejo El Sod (o nome vem de “soda”) foi um desafio para nosso “amigo” Odé. Não apenas nosso GPS não conhecia o lugar como cismava em dizer que a estrada (de 15 km, que saia da rodovia principal) não existia. Tivemos de recorrer ao velho sistema de ir perguntando onde ficava o vilarejo. Mesmo sem a ajuda de 10 satélites, chegamos ao local e nossa presença atraiu imediatamente dezenas de crianças, ritual constante na Etiópia.
Esquivando-nos da molecada que oferecia de tudo – até mesmo buscar um refrigerante na vendinha – descobrimos a borda da cratera. Lá embaixo, a uns 350 metros de desnível, um lago escuro. Enquanto discutimos se vale ou não a pena descer – teríamos tempo de atravessar a fronteira ainda hoje? – chega um grupo de adultos.
El Sod é um dos quatro vulcões no sul do país que possui grande quantidade de sal na sua cratera. O lago de 800 metros de diâmetro contem sal preto.
Doba Barako explica que a visita da cratera só pode ser feita, por questões de segurança, com um dos guias da associação criada recentemente com essa finalidade. Aceitamos a proposta, mas insistimos que nosso condutor falasse algumas palavras de inglês para que pudéssemos aproveitar um pouco mais do local. Essa exigência criou certo rebuliço, pois, nessa região isolada do país, raras são as pessoas que falam um idioma ocidental. Doba, um dos chefes da associação, achou que seu inglês chamuscado seria a melhor solução e decidiu fazer conosco a caminhada de 2 km.
A trilha é estreita e dividimos o espaço com dezenas de burros que baixam sem carga, ultrapassando-nos sem piedade. Também encontramos muitos asnos que sobem a encosta, carregando no dorso dois pesados sacos pretos, de 25 quilos cada um. Dentro, uma lama negra, bem pegajosa, com um cheiro forte de minério.
Cada burro transporta duas sacolas de sal preto desde a cratera até o vilarejo, no topo.
À medida que descemos, entendemos melhor a operação. Homens, com bolas de algodão tapando as narinas e os ouvidos, entram na água negra e espessa para retirar enormes pedaços de lama salgada. Eles usam uma longa vara, chamada dongora, para soltar esses fragmentos do fundo do lago e, em seguida, mergulham a 5 ou 10 metros de profundidade para encontrar o produto. Esses “mergulhadores do sal” são chamados de lixu e geralmente fazem seu trabalho sem roupa.
A lama é transportada até a beira do lago em bacias de plástico e depois é ensacada. No fundo da cratera, cada saco de 25 quilos vale 50 birr (menos de 7 reais), mas o mesmo produto é vendido por 17 reais na cidade vizinha. Essa pasta de sal preto é considerada como um excelente alimento para camelos e outros animais domésticos.
Um lixu (ou “mergulhador do sal”) carrega nos braços uma bola de lama salgada. O produto é vendido e ensacado na hora.
Doba Barako explica que, como estamos na época das chuvas, o lago está cheio de água. “Apenas os homens com grande experiência podem descer ao fundo para encontrar o sal preto, misturado com lama e outros minerais”, afirma o chefe da associação de guias. “Mas na época da seca, encontramos cristais brancos do mesmo sal”.
Difícil acreditar que o local possa produzir produtos tão diferentes, mas todos insistem que, quando há pouca água, o local é bem mais acolhedor. “Essa cratera tem sido nossa principal fonte de renda durante muitas gerações. Nossos avós e bisavós tiravam sal daqui”, diz Doba. “Queremos agora que o sal – seja preto ou branco – possa também trazer outros visitantes que queiram conhecer o lugar”.
Retirar o sal preto do fundo do lago da cratera é uma atividade tradicional da comunidade El Sod.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Os Limites do Mundo Codificado

Traduzido em primeira mão para voces, direto do NY Times.

Para quem se inquieta com os livros de Dan Brown ("O Código da Vinci", "Anjos e Demonios", "O Símbolo Perdido"), mais uma experiencia científica muito bem analisada, sobre a tentativa do homem em descobrir se temos de fato livre-arbítrio - ou não, como diria Caetano. 

É possível que Dan Brown - ou similar - daqui a pouco utilize sua verve literária e distorça as conclusões de William Egginton num novo best-seller, onde cientistas patrocinados pelo Vaticano descobrem "O Código dos Códigos", onde computadores passarão a prever a decisões tomadas pelos homens e então, uma nova conspiração mundial entrará em cena, com Tom Hanks mais uma vez interpretando o ateu que salva o mundo da sua própria incapacidade de entender algo que René Descartes provou pela Lógica: há um Ser Superior que não conseguimos alcançar totalmente com nosso raciocínio humano.

Boa leitura. Boa reflexão.

Em Cristo,
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Os Limites do Mundo Codificado

William Egginton

Em um influente artigo no Annual Review of Neuroscience, Joshua Gold, da Universidade da Pensilvânia e Shadlen Michael, da Universidade de Washington resume experimentos que visam descobrir as bases neurais de tomada de decisão. Em um conjunto de experimentos, os pesquisadores inseriram sensores nas partes responsáveis por reconhecimento de padrões visuais dos cérebros de macacos. Os macacos foram ensinados a responder a uma sugestão ao optar por olhar para um dos dois padrões. Computadores lendo os sensores foram capazes de registrar a decisão a uma fração de segundo antes dos olhos do macaco se virarem para o padrão. Como os macacos não deliberam, mas sim reagem a estímulos visuais, os pesquisadores foram capazes de afirmar de forma plausível que o computador pode predizer com sucesso a reação dos macacos. Em outras palavras, o computador estava lendo as mentes dos macacos e sabia antes o que eles tomariam como sendo a sua decisão.

Nós não temos nenhuma razão para supor que qualquer previsibilidade ou falta de previsibilidade tem algo a dizer sobre livre-arbítrio.

As implicações são imediatas. Se os investigadores podem, em teoria, prever o que os seres humanos decidirão antes deles próprios saberem, o que resta da noção de liberdade humana? Como podemos dizer que os seres humanos são livres de qualquer forma significativa, se os outros podem saber quais serão suas decisões, antes deles mesmos as tomarem?

Investigações deste tipo podem parecer assustadoras. Um experimento que demonstre a natureza ilusória da liberdade humana, na mente de muitas pessoas, roubaria dos indivíduos do teste algo essencial para a sua humanidade.

Se uma máquina pode me dizer o que estou prestes a decidir antes que eu decida, isto significa que, em certo sentido, a decisão já estava tomada antes de eu me tornar conscientemente envolvido. Mas se for esse o caso, como poderei eu, como agente moral, ser responsabilizado pelas minhas ações? Se, no limite de uma decisão moral importante, agora eu sei que minha decisão já foi tomada no momento em que eu me achava por decidir, isto não prejudica a minha responsabilidade por essa escolha?

Pode-se concluir que a resistência a tais resultados revelam um viés religioso. Afinal, a capacidade de decidir conscientemente é essencial em muitas religiões para a manutenção da idéia de seres humanos como seres espirituais. Sem liberdade de escolha, uma pessoa torna-se uma roda dentada na máquina da natureza, com ação e escolha predeterminados. Moral e, finalmente, o próprio sentido da existência da pessoa, ficam em frangalhos.

Teólogos passaram uma grande parte do tempo ruminando sobre o problema da determinação. A resposta católica para o problema teológico da teodicéia - ou seja, de como explicar a existência do mal num mundo governado por um Deus benevolente e onipotente - foi a de ensinar que Deus criou o homem com livre-arbítrio. É só porque o mal existe que os seres humanos são livres para escolher entre o bem e o mal. Portanto, a escolha para o bem tem um significado. Como os teólogos no Concílio de Trento, no século 16 colocam, a liberdade da vontade é essencial para a fé cristã, e é um anátema acreditar no contrário. Teólogos protestantes, como Lutero e Calvino, a quem coube responder à declaração de Trento, contestaram esta ideia com base na onisciência de Deus. Se a habilidade de Deus para saber fosse realmente ilimitada, eles argumentaram, então seu conhecimento do futuro seria tão mais claro e perfeito como o seu conhecimento do presente e do passado. Se fosse esse o caso, no entanto, Deus já sabe o que cada um de nós fez, está fazendo e vai fazer em cada momento de nossas vidas. E como, então, podemos ser verdadeiramente livres?

Mesmo que essa resistência particular para um modelo determinista do comportamento humano seja religioso, pode-se facilmente chegar ao mesmo tipo de conclusões a partir de uma perspectiva científica. Na verdade, quando a religião e a ciência esquadrinham em torno da liberdade humana, muitas vezes acabam em terrenos muito semelhantes, pois tanto a ciência como a religião baseiam seus pressupostos no entendimento idêntico do mundo como algo intrinsecamente cognoscível, seja por Deus ou por nós mesmos.

Enquanto nossos sentidos só podem nos trazer conhecimentos reais sobre como o mundo aparece no tempo e no espaço, a nossa razão sempre se esforça para saber mais.

Deixe-me explicar o que quero dizer por meio de um exemplo. Imagine que suspender uma esfera de aço de um ímã diretamente acima de uma placa de aço vertical, de modo que quando eu desligo o ímã, a bola bate na borda da placa e cai para um lado ou outro dela.

Pouquíssimas pessoas, tendo aceitado as premissas do presente experimento, poderiam concluir a partir do seu resultado que a bola em questão estava exibindo o livre-arbítrio. Se a bola cair em um ou outro lado da chapa de aço, todos nós podemos concordar confortavelmente, que isso é completamente determinado pelas forças físicas que agem sobre a bola, que são simplesmente demasiado complexas e minuciosas para nós monitorarmos.

E ainda não temos nenhum problema assumindo o oposto como verdadeiro para a aplicação do experimento com os macacos para humanos teóricos, a saber: porque as ações dos macacos são previsíveis, pode-se presumir a falta de livre-arbítrio. Em outras palavras, nós não temos razão alguma para supor que qualquer previsibilidade ou falta de previsibilidade tem algo a dizer sobre a livre-arbítrio. O fato de que fazemos essa associação tem mais a ver com o modelo do mundo que nós importamos sutilmente em experimentos com esse pensamento do que com as experiências em si.

O modelo em questão sustenta que o universo existe no espaço e no tempo como uma espécie de código final que pode ser decifrado. Esta imagem do universo tem uma origem filosófica e religiosa, e fez o seu caminho em crenças e práticas seculares também. No caso da liberdade humana, essa presunção de um "código de códigos” opera convencendo-nos que a previsão de alguma forma decodifica ou decifra um futuro que já existe em uma forma codificada.

Assim, por exemplo, quando os computadores leem os sinais provenientes do cérebro dos macacos e fazem uma previsão, a crença no “Código de códigos” influencia a forma como nós interpretamos o evento. Em vez de interpretar a previsão como ela é - uma declaração sobre o processo neural que leva a ações dos macacos - nós extrapolamos sobre um suposto futuro como se já estivesse escrito, e tudo que nós estávamos fazendo era lê-lo.

Em minha opinião, o filósofo que deu a resposta mais completa a esta pergunta foi Immanuel Kant. Na opinião de Kant, o principal erro que os filósofos antes dele tinham cometido, quando consideraram como os seres humanos poderiam ter o conhecimento exato do mundo, foi esquecer a diferença necessária entre o conhecimento e o sujeito real desse conhecimento. À primeira vista, isso pode não parecer uma coisa muito fácil de esquecer: por exemplo, o que os nossos olhos nos dizem sobre um arco-íris e o que esse arco-íris é realmente são coisas completamente diferentes. Kant argumentava que a nossa incapacidade de compreender esta diferença foi ainda mais abrangente e teve conseqüências maiores do que qualquer um poderia ter pensado.

A crença de que nossa pesquisa empírica do mundo e do cérebro humano jamais poderia erradicar a liberdade humana é um erro.

Tomando novamente o exemplo do arco-íris, Kant diria que, enquanto a maioria das pessoas simplesmente aceitaria a diferença entre a gama de cores que nossos olhos percebem e a refração da luz que causa este fenômeno ótico, eles ainda manteriam que a observação mais cuidadosa poderia realmente levar alguém a conhecer o arco-íris como realmente é, para além da sua manifestação perceptível. Esse entendimento comum, segundo ele, estava na raiz de nossa tendência a cair profundamente em erro, não apenas sobre a natureza do mundo, mas sobre o que fomos levados a acreditar sobre nós mesmos, Deus, e nosso dever para com os outros.

O problema é que enquanto nossos sentidos só podem nos trazer sempre conhecimento verificável sobre como o mundo parece no tempo e no espaço, a nossa razão sempre se esforça para saber mais do que as aparências podem mostrá-lo. Esta tendência da razão de sempre saber mais é - e foi - uma coisa boa. É por isso que a espécie humana é sempre curiosa, sempre progredindo com o conhecimento e realizações cada vez maiores. Mas se não for temperada por uma relação de seus limites e uma compreensão de suas tendências inatas a exagerar, a razão pode nos induzir ao erro e ao fanatismo.

Vamos voltar ao exemplo do experimento de prever as decisões dos macacos. O que a experiência nos diz que nada mais é do que o processo de tomada de decisão dos macacos move através do cérebro, e que a nossa tecnologia nos permite obter uma leitura daquela atividade mais rápido do que o cérebro dos macacos pode colocá-la em ação. A partir desse resultado relativamente simples, podemos ver agora que presumimos a partir de uma série não justificada de enigmas e não tivemos grandes tiradas. E a razão pela qual presumimos assim era porque nós inquestionavelmente traduzimos algo desconhecido - a extensão de tempo, incluindo o futuro dos macacos, a partir de ações não decididas e não realizadas - em um cenário puro que só precisava ser decodificado para ser experimentado. Nós tratamos o futuro como se já tivesse acontecido e, portanto, como uma série de eventos que podem ser lidos e narrados.

De uma perspectiva kantiana, com este simples ato permitimos que a razão ultrapassasse os seus limites, e como resultado, caímos no erro. O erro em que caímos foi, especificamente, acreditamos que nossa pesquisa empírica do mundo e do cérebro humano poderia erradicar a liberdade humana.

Este, então, é o motivo, tão "irresistível" quanto a sua lógica possa parecer, pelo qual nenhuma das versões do argumento básico de Galen Strawson para o determinismo, que ele descreveu em “A Pedra” na semana passada, ter qualquer relevância para a liberdade humana ou a responsabilidade.

Segundo esta lógica, a responsabilidade deve ser ilusória, porque, para ser responsável, em determinado momento, um agente deve também ser responsável pela forma como ele ou ela se tornou como ele ou ela está naquele momento, o que inicia uma regressão infinita, porque em nenhum ponto pode uma pessoa ser responsável por todas as forças culturais e genéticas que a produziram como ele ou ela é.

Mas essa lógica não é senão uma versão filosófica do código dos códigos, que pressupõe que a história da soma de forças que determina um indivíduo existe como uma espécie de catálogo legível potencial.

O ponto a salientar, contudo, é que este catálogo não é legível mesmo em teoria, para ser conhecido que assume uma espécie de conhecedor ilimitado por tempo e espaço, um conhecedor que pode estar presente em todas as perspectivas possíveis a cada momento decisório possível na pré-história e história de um agente. Tal conhecedor, é claro, só poderia ser algo na linha do que as tradições monoteístas chamam de DEUS. Mas, como Kant esclarece, não faz sentido pensar em termos de ética ou responsabilidade, ou liberdade quando se fala de DEUS. Fazer escolhas éticas, ser responsável por elas, ser livre para escolher mal, tudo isso requer precisamente o tipo de ser que é limitado pela opacidade mínima que define nosso tipo de saber.

Tanto quanto devemos a natureza de nossa existência atual às forças da evolução que Darwin certa vez descobriu, ou às culturas onde crescemos, ou aos estados químicos que afetam nossos processos cerebrais a qualquer momento, nada disso impacta sobre a nossa liberdade. Sou livre porque nem a ciência, nem a religião, podem sempre dizer com certeza como o meu futuro vai ser e o que devo fazer sobre isso. A máxima de Sartre que Strawson citou, assim fica exatamente correta: “Eu estou condenado à liberdade. Eu não sou livre porque posso fazer escolhas, mas porque devo fazê-las, o tempo todo, mesmo quando eu acho que não tenho nenhuma escolha a fazer”.

William Egginton é Professor de Humanidades da Universidade John Hopkins. Seu próximo livro, "Uma fé incerta: ateísmo, fundamentalismo, religioso e moderação", será publicado pela Columbia University Press em 2011.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A Copa e o Complexo de Viralata

Prezados líderes:


Atentem para o fato de que voces SEMPRE terão, entre aqueles que assistem o desenrolar da sua performance diária:

  1. Aqueles que aplaudem e assobiam entusiasticamente enquanto tudo dá certo e passam a apupar e atirar ovos podres e tomates quando acontece a sua primeira bola na trave. Como membros da equipe, só os reconhecemos de fato quando algo indica a probabilidade de dar errado, pois este é o momento em que automaticamente largam suas ferramentas, tiram as mãos dos remos e se calam, esperando a definição da tragédia. São adesistas de primeira hora, mas também são os primeiros a abandonar o projeto ou a causa, optando por algo de mais destaque no momento.
  2. Aqueles para quem nada, nunca, está certo e nada, nunca, funcionará.Estatísticos que são, sabem que ser humano nenhum é perfeito e portanto, sabem que um dia eles estarão certos em seu amargor rotineiro, quando então levantarão aquela placa que sempre carregam consigo, com os dizeres "EU JÁ SABIA!". Como membros de equipe, murmuram enquanto trabalham, inoculando seu veneno em doses generosas nos outros membros da equipe. Se confrontados, nunca tem comentário a fazer, permanecendo de cabeça baixa, acumulando seus ressentimentos por terem sido convidados a opinar num momento que julgam inadequado - cedo demais para que saibam o que opinar ou tarde demais para que algo possa ser feito a partir da sua sempre sábia opinião. Depender da opinião de um desses é estar sempre inadequado ao momento, pois nunca haverá solução possível saindo daquela pobre cabeça, a não ser o fato de que nada está como deveria ser. 

Muito provavelmente, muitos de nós já nos deparamos com um desses tipos em nossas equipes ou platéias. Com Dunga, Felipão, Zagallo e Andrade não foi diferente. A auto-estima do brasileiro merece um estudo de caso, pois conforme dizia Nelson Rodrigues, "o brasileiro médio sofre do Complexo de Viralata", ou seja:: 

  • só o primeiro lugar importa; 
  • o segundo colocado nada mais é do que o primeiro dos perdedores; 
  • a vida só faz sentido com uma vitória esmagadora por dia ou então 
  • merecemos ser escorraçados como cães lazarentos. 
Definitivamente, a vida não é assim. Viver assim adoece e mata de frustração.


Esta noção tem feito a fortuna de apústulas (apóstolos da doença) e putriarcas (patriarcas da podridão) no mundo inteiro, que tem se locupletado dos bolsos dos rebanhos, enquanto berram a plenos pulmões que "DEUS lhe dará, se voce der - e mais lhe dará, se voce der mais! Não aceite de DEUS nada menos que a vitória esmagadora e imediata!". Não é exclusividade dos brasileiros, portanto.

Dentre os mais de 140 países afiliados à FIFA, ficamos entre os oito melhores. Mais de 130 países tiveram desempenho aquém do nosso - países tradicionalmente fortes como Itália e França! Perdemos por um gol de diferença. Nuestros hermanos del Plata caíram de quatro ante os alemães e ainda assim foram recebidos como heróis en su terramadre. Nós desejávamos a forca para os "desgraçados" que nos expuseram à desonra de estamos entre os melhores, mas não sermos absolutamente os melhores dentre os melhores. 


Pobres viralatas, carentes de auto-afirmação diária, com as costelas a furar-lhes o couro pelo ouro não conquistado - de que lhes adiantam a prata e o bronze? 


Pobres viralatas, crentes na mentira penta-secular da predestinação de campeões invencíveis, que não tem que galgar a montanha passo a passo, pois já nasceram no topo dela! Ao que julga estar de pé, cuide para que não caia. Ao que está no topo, cuide para que não escorregue - a descida é íngreme e escarpada, fala aquele que já escorregou do topo.

O dia em que aprendermos a trilhar o caminho onde o revés ensina a triunfar além da humilhação, seremos então bem mais felizes e realmente vencedores.


sábado, 5 de junho de 2010

...Ali se Ajuntarão as Águias


“Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos. Eis que eu vo-lo tenho predito. Portanto, se vos disserem: Eis que ele está no deserto, não saiais. Eis que ele está no interior da casa; não acrediteis. Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem. Pois onde estiver o cadáver, aí se ajuntarão as águias.” (Mateus 24:24-28)
Águia (αετός [grego], נשר [hebraico]) é o nome comum dado a algumas aves de rapina da família Accipitridae, geralmente de grande porte, carnívoras, de grande acuidade visual. O nome é atribuído a animais pertencentes a gêneros diversos e não corresponde a nenhuma classe taxonômica. Por vezes, dentro de um mesmo gênero ocorrem espécies conhecidas popularmente por gavião ou búteo.
As águias são também símbolos utilizados em vários contextos e culturas: Como símbolo das legiões romanas, animal nacional dos Estados Unidos da América, símbolo e mascote de escolas de samba, clubes de futebol e da indústria cosmética.
A águia pode ser vista simbolicamente como símbolo da força, da grandeza e da majestade. Foi muito usada em brasões de exércitos, figurando nos estandartes de Ciro, rei dos Persas, e, mais tarde, durante o segundo consulado de Mário, encimando as lanças que eram insígnias das legiões. Na simbologia cristã aparece como possível símbolo da ressurreição e o triunfo de Cristo e do cristianismo. Foi também o símbolo da alma humana, o símbolo das artes. Chama-se de águia o homem muito perspicaz, penetrante, que vê longe; superior em inteligência.
As aves de rapina - ou rapinantes - são aves carnívoras que compartilham características semelhantes: bicos recurvados e pontiagudos, garras fortes e visão de longo alcance. Assim as rapinantes são aves ágeis na captura de seus alimentos: grandes artrópodes, peixes, anfíbios, pequenos mamíferos e pequenas aves. Mas cada rapinante está adaptada para caçar um tipo de animal, ou certo grupo deles. Por exemplo: Abutres, urubus e corvos são aves necrófagas (não caçam, mas alimentam-se de carcaças de animais já mortos), enquanto as águias são aves raptoras, ou seja, capturam suas presas e as levam ainda vivas para o ninho, onde são finalmente devoradas.
Por essa mesma razão, esse trecho do evangelho segundo Mateus me causa forte impressão, especialmente a parte que relaciona águias a um cadáver. Em condições normais, nunca veríamos águias em torno de um cadáver. Essa é uma atitude típica de aves necrófagas, como o próprio nome diz, comedoras de cadáveres (do grego νεκρός, nekrós = “cadáver”; τρώγων trógon = “devorador de”) como os corvos (no grego κοράκι, koráki), urubus e abutres (do grego όρνιο, órvio).
Duas características das águias tornam essa situação ainda mais estranha: a primeira é que águias (αετός) são seres solitários, não caçam em grupo; a segunda é que águias caçam animais vivos, a ponto de ser grande a probabilidade de sua caça chegar ainda viva ao seu ninho, onde então é devorada pela águia adulta e seus filhotes. Ou seja: enquanto corvos e abutres são responsáveis por limpar a natureza das carcaças de animais mortos, livrando o meio ambiente da conseqüente contaminação, as águias capturam animais vivos para sua alimentação. Portanto, a visão de águias se reunindo em torno de um cadáver é algo terrível, porque é prenúncio de situações terríveis.
A primeira situação terrível é a ausência de alimento vivo. Creio que somente diante da ausência absoluta de alimento vivo – peixes, roedores e aves - uma águia se sujeitaria a disputar pedaços de um cadáver. Transferindo esta visão ao aspecto simbólico espiritual da águia - a alma humana – seria algo terrível como a alma humana mergulhada em trevas, sem acesso ao alimento vivo da Palavra de DEUS e se alimentando de doutrinas mortas, contaminadas, em decomposição, ídolos inócuos e rituais fantasiosos.
A segunda situação terrível é a carência generalizada de alimento saudável. A imagem de várias águias disputando um cadáver retrata uma situação de carência total de alimento saudável, a ponto das águias se reunirem em torno de um cadáver. Não se trata de uma situação individual. Não se trata de apenas uma águia sem caça no seu território, mas de várias águias que não dispõem do alimento que a Natureza normalmente lhe fornece. Águias são predadores que enxergam muito longe e na situação retratada em Mateus, a visão das águias não encontra seu alimento mesmo ao longe. Outro importante aspecto é que as águias tem seu território bem definido. Não é comum uma águia invadir o território de outra águia, a menos que haja carência de caça no seu próprio território. Transpondo esta visão para o âmbito espiritual, onde a águia representa a alma humana, podemos imaginar uma multidão de almas famintas da Palavra de DEUS, sem no entanto ter acesso a ela. Essas almas se agrupam em torno dos falsos ensinos e se contaminam com eles, servindo a falsos deuses, falsos profetas e falsos messias, mergulhadas nas trevas da ignorância e da apostasia. Essas almas adoecem com a continuidade desse espetáculo tenebroso e a conseqüência é a morte.
A terceira situação terrível é a mudança no comportamento natural. Mateus descreve águias, no plural. São várias águias em torno de um único cadáver, disputando seus restos, como se fossem abutres. Este é o comportamento extremo oposto ao natural das águias, caçadoras solitárias, de vida reservada, seletivas quanto ao alimento que capturam vivo, para si e sua prole. A situação descrita por Mateus aborda a total inversão desse comportamento, com a adoção de atitudes típicas de animais que são comumente associados às abominações e à repugnância – abutres e corvos. As almas humanas, espiritualmente representadas por essas águias, comportam-se de maneira totalmente inversa ao que seria o seu projeto original, tornam-se abominações espirituais, afastadas da vontade de DEUS, caminhando com suas próprias asas para a sua extinção.
Mateus descreve um tempo próximo à segunda e definitiva vinda do Filho de DEUS. Um tempo em que falsos profetas e falsos messias arrastarão multidões para seus falsos ensinos e falsas doutrinas por meio de feitos maravilhosos e enganosos. É o próprio Jesus Cristo quem descreve esta situação drástica e abominável, onde águias – almas humanas - abandonam seu comportamento natural e se atiram à promiscuidade e contaminação devido à ação desses falsos profetas e falsos messias.
Havemos de cuidar da doutrina que abraçamos para a nossa salvação.
Havemos de cuidar do alimento espiritual que ingerimos, a fim de não nos contaminarmos.
Havemos de cuidar do alimento espiritual que ministramos aos nossos filhos naturais e espirituais, a fim de que não se maravilhem com os feitos extraordinários dos falsos profetas e falsos messias e com isso se desviem.
Havemos de cuidar que não sejamos desviados nesses últimos dias.
Assim seja, em nome de Jesus.

sábado, 3 de abril de 2010

Entrevista com o inimigo

(Versão hermeneuticamente aprimorada pelo Pr. Walter Leite - I. B. Betel)


1. QUEM O CRIOU?
Lúcifer : Deus é o único Criador de todas as coisas; mas não pode ser responsabilizado pelos rumos que elas tomam quando são livres para decidir. Assim, poderíamos dizer que Deus me criou quando eu era algo totalmente diferente daquilo que me tornei.

2. COMO VOCÊ ERA QUANDO FOI CRIADO?

Lúcifer
Como todos os outros anjos, vim à existência já na forma adulta e, como Adão, não tive infância física, mas creio que podemos dizer que todos os seres criados por Deus tem um caminho de aprendizado. Afastei-me do meu... Eu era um símbolo de perfeição, cheio de sabedoria e formosura e minhas vestes foram preparadas com pedras preciosas.
3. ONDE VOCÊ MORAVA?

Lúcifer :
 Em um Éden diferente daquele que chamam de "Jardim". Ali não se faz menção de plantas ou animais, apenas de pedras preciosas. Não havia ainda vida biológica. Eu caminhava no brilho destas pedras preciosas do monte Santo de Deus. 

4. QUAL ERA SUA FUNÇÃO NO REINO DE DEUS?

Lúcifer :
 Como querubim da guarda, ungido e estabelecido por Deus, minha função era guardar a Glória de Deus e conduzir os louvores dos anjos a Deus.
5. ALGUMA COISA FALTAVA A VOCÊ?

Lúcifer : 
(reflexivo, diminui o tom de voz) Não, quer dizer, no início eu achava que nada me faltava; mas depois de um tempo (sem querer dizer "tempo" como vocês o entendem) achou-se uma falta de justiça em mim, falta de ser e agir satisfeitos com a justiça de Deus. Os hebreus chamam isso de "ehvel".

6. O QUE ACONTECEU QUE O AFASTOU DA FUNÇÃO DE MAIOR HONRA QUE UM SER VIVO PODERIA TER?

Lúcifer :
 Meu afastamento não aconteceu de repente. Não posso me comparar a Miguel, Gabriel ou qualquer outro dos anjos, porque perante Deus não existe função de maior ou menor honra. Perante Ele existe "obediência ao seu chamado". Isso, segundo a mentalidade angelical que possuíamos antes já é a maior honra que qualquer ser pode ter... Na verdade aquele "ehvel" que mencionei era a minha própria arrogância de querer sentir como seria ser adorado como deus e passei a desejar isto no meu coração. Do desejo passei para oplanejamentosedição (convenci um terço dos anjos a me apoiar) e finalmente, ação, para firmar o meu trono acima das estrelas de Deus e ser semelhante a Ele. Mas acabei expulso do Santo Monte de Deus. [Isaías 14:13,14; Ezequiel 28: 15-17]

7. O QUE DETONOU FINALMENTE A SUA REBELIÃO?

Lúcifer :
 Alguns alegam que foi por ciúmes ou inveja do homem que Deus iria criar; porém isso é tentar transferir a culpa indiretamente para Deus. O homem ainda não existia, o "Jardim" ainda não existia. Mas em mim já existia a falta de justiça. Sempre queremos transferir a culpa para os outros (Adão disse que foi Eva...Eva disse que foi a serpente...mas a serpente não disse nada...)
8. O QUE ACONTECEU COM OS ANJOS QUE ESTAVAM SOB O SEU COMANDO?

Lúcifer : 
Vocês, repórteres, não compreendem que as palavras de vocês podem ter vários sentidos...muitos deles errados. Os outros anjos que caíram, não caíram porque estavam "sob meu comando" - dando a impressão de que apenas "seguiam ordens". Precisamos para de transferir a culpa para os outros. Eles me seguiram por que se deixaram seduzir por minhas mentiras e por duvidar das verdades de Deus. Assim, também foram expulsos. Formamos juntos o império das trevas. [Apocalipse 12:3,4]

9. COMO VOCÊ ENCARA O HOMEM?

Lúcifer :
 (com raiva) Tenho ódio da raça humana porque forma criados à imagem e semelhança de Deus. Não pude destruir Deus e nem destroná-lO; porém posso fazê-lo com os que trazem a imagem d'Ele. É uma forma de magoá-lO indiretamente e sentir algum prazer sádico fetichista[1Pedro 5:8]

10. QUAIS SÃO SUAS ESTRATÉGIAS PARA DESTRUIR O HOMEM?

Lúcifer :
 Meu objetivo maior é afastá-los de Deus. Eu os estimulo a praticar o mal e confundo suasideias com um mar de filosofias, pensamentos e religiões cheias de mentiras, misturadas com algumas verdades. Envio meus mensageirostravestidos, para confundir aqueles que querem buscar a Deus. Torno a mentira parecida com a verdade, induzindo o homem ao engano e a ficar longe de Deus, achando que está perto. E tem mais. Faço com que a mensagem de Jesus pareça uma tolice anacrônica, tento estimular o orgulho, a soberba, o egoísmo, a inimizade e o ódio dos homens. Trabalho arduamente com o meu séquito para enfraquecer as igrejas, lançando divisões, desânimo, críticas aos líderes, adultério, mágoas,friezas espirituais, avareza e falta de compromisso (ri às escaras). Tento destruir a vida dos pastores, principalmente com o sexo, ingratidão, falta de tempo para Deus e orgulho. [1Pedro 5:8; Tiago 4:7; Gálatas 5:19-21; 1 Corintios 3:3; 2 Pedro 2:1; 2 Timóteo 3:1-8; Apocalipse 12:9].

Quando nada disso dá muito certo eu ajudo a distorcer versículos da Bíblia para criar falsas doutrinas que vão desde uma mentirosa prosperidade, saúde e felicidade terrenas (ao ponto de ninguém mais querer o céu...aqui 
embaixo está bom...heheheheheh) até uma obsessão doentia por tudo o que tenha a ver com demônios e nossas artimanhas (levando cristãos a passarem mais tempo conosco do que com Deus...hehehehehe )

11. E SOBRE O FUTURO?

Lúcifer : 
(com semblante de ódio) Eu sei que a Palavra de Deus diz que não posso vencer a Deus e que me resta pouco tempo para ir ao lago de fogo, minha prisão eterna. Mas tudo começou quando eu desafiei a Palavra de Deus lá nos céus...não há por que mudar agora. Talvez ela não se cumpra desse jeito ou as traduções estejam erradas, afinal não há originais para conferir (sorriso de malícia enquanto lança dúvidas no ar). Eu e meus anjos trabalharemos com afinco para levarmos o maior número possível de pessoas conosco. [Ezequiel 28:19; Judas 6; Apocalipse 20:10,15]

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Assim não é, mesmo que lhe pareça



“Depois disso, aconteceu o seguinte: Acabe, rei de Samaria, tinha um palácio em Jezreel. Perto desse palácio havia uma plantação de uvas que pertencia a um homem chamado Nabote. Certo dia Acabe disse a Nabote: - Dê-me a sua plantação de uvas. Ela fica perto do meu palácio, e eu quero aproveitar o terreno para fazer uma horta. Em troca, eu lhe darei uma plantação de uvas melhor do que a sua ou, se você preferir, eu pagarei um preço justo por ela”. (I Reis 21:1-2)

 O infame rei Acabe vinha do anúncio de uma profecia que lhe anunciava a própria morte (I Reis 20). Ao recebê-la, ficou desgostoso e indignado. Voltou à Samaria com esse espírito e essa má expectativa. No entanto, passou-se algum tempo e a profecia ainda não havia se cumprido. Como não morrera até ali, seu desgosto e sua indignação foram dando lugar à empáfia e à cobiça que lhe eram usuais. Planejou então ampliar seus domínios próximos ao seu palácio, justamente nas terras pertencentes a Nabote. Como era o rei, sequer passava pela sua cabeça a possibilidade de ter sua aspiração negada por aquele a quem pertenciam as terras. Porém Nabote tinha outros pensamentos, conforme segue:

 “- Esta plantação de uvas é uma herança dos meus antepassados! - respondeu Nabote. - Que o SENHOR Deus me livre de entregá-la ao senhor! Acabe foi para casa aborrecido e com raiva por causa do que Nabote tinha dito. Ele se deitou na cama, virado para a parede, e não quis comer nada. (I Reis 21:3-4)


Tiranos não reagem bem à frustração. Estão acostumados a terem suas vontades mais superficiais atendidas. Não há limite para a sua cobiça. O peso da vontade alheia para um tirano é o zero absoluto, nada vale. Descobrir-se limitado por leis, regras e convenções gera uma frustração profunda nos tiranos. Via de regra, isso é o suficiente para que o seu julgamento veja erro na lei, engano na regra e equívoco nas convenções. Diante do obstáculo legal, infantilizam-se, tal como Acabe, criança birrenta, deitado em sua cama, de cara para a parede, de mal com o mundo, sem comer, à espera que alguém lhe venha dar atenção. A brecha está aberta para que o inimigo se infiltre e inicie seu ritual de roubo, morte e destruição. Acabe já não se lembra da profecia a seu respeito. Não há arrependimento, só cobiça frustrada. Logo ele trabalhará para que as leis, regras e convenções sejam abolidas e substituídas por sua vontade soberana. Ele escancara as portas do seu coração para que o inimigo lhe tome o poder de decisão e lhe preste um favor, que lhe custará muito caro, conforme vemos a seguir:

Então a sua esposa Jezabel foi falar com ele e perguntou: - Por que você está assim aborrecido? Por que não quer comer? Ele respondeu: - É por causa do que Nabote me falou. Eu lhe disse que queria comprar a sua plantação de uvas ou então, se ele preferisse, eu lhe daria outra em troca. Mas Nabote me disse que não me daria a sua plantação. Então Jezabel disse a Acabe, o seu marido: - Afinal de contas, você é o rei ou não é? Levante-se, anime-se e coma! Eu darei a você a plantação de uvas de Nabote, o homem de Jezreel!” (I Reis 21:5-7)

Um tirano mimado e infantilizado entrega a sua autoridade a quem quer que lhe prometa satisfazer sua vontade egoísta. Ele sequer procura saber como tal promessa se tornará realidade. Basta-lhe saber que alguém lhe trará o ambicionado brinquedo, que tanta frustração tem lhe trazido. Ele no fundo sabe que o expediente utilizado para alcançar sua meta não será lícito, mas é melhor que não “o saiba em detalhes” ou terá que se posicionar a respeito, interrompendo o fluxo de obtenção do seu desejo. Convenientemente, ele fecha os olhos para o que vai acontecer, desde que lhe tragam a notícia desejada. Pusilanimidade e hipocrisia caminham lado a lado no comportamento do tirano mimado. Ele não sabe, não quer saber e terá muita raiva de quem souber do estratagema, que é descrito a seguir:

“Então ela escreveu algumas cartas em nome de Acabe e carimbou-as com o anel-sinete dele e as mandou para as autoridades e para os líderes de Jezreel. As cartas diziam o seguinte: "Mandem avisar que vai haver um dia de jejum, reúnam todo o povo e ponham Nabote no lugar de honra. Ponham sentados na frente dele dois homens de mau caráter para acusarem Nabote de ter amaldiçoado a Deus e ao rei. Depois levem Nabote para fora da cidade e o matem a pedradas." (I Reis 21:8-10) 

Acabe cedeu sua identidade real a Jezabel. Em seu nome, foram escritos e selados com o selo real os procedimentos para o assassinato de um inocente. Em seu nome, um inocente foi condenado à morte com um propósito egoísta, de caso pensado, sem que ele intercedesse com justiça. A vida dos outros tem valor zero se confrontada aos objetivos de um tirano usado pelo inimigo. Muito provavelmente, nada disso seria feito por sua própria iniciativa. Talvez ele permanecesse ali na cama, resmungando mais algum tempo e até se conformasse com a negativa, quem sabe. Porém, uma vez cedida a autoridade ao inimigo, ele próprio se encarrega de providenciar os elementos necessários para que o seu plano de roubar, matar e destruir seja levado a cabo.

A assinatura que está lá é a de ninguém menos que o próprio rei. O inimigo age com a chancela do rei, muito embora o rei não saiba o que está para acontecer. Não tratamos aqui de um ataque exclusivo à autoridade real: outras autoridades e mesmo cidadãos comuns tem legitimado ações demoníacas simplesmente por ceder a sua assinatura, a sua permissão, a sua imagem,  o seu voto, para que o mal execute o seu festim diabólico com um rótulo de legitimidade. Quem mesmo levará a culpa no final das contas? Mas uma idéia sem executores é nada além de uma vontade. Para que idéias se tornem em ação são necessários executores, conforme descrito no texto bíblico a seguir:

“Os líderes e as autoridades de Jezreel fizeram o que Jezabel havia ordenado. Eles mandaram avisar que ia haver um dia de jejum, reuniram o povo e puseram Nabote no lugar de honra. Então, diante do povo, os dois homens de mau caráter acusaram Nabote de haver amaldiçoado a Deus e ao rei. E assim ele foi levado para fora da cidade e morto a pedradas. Depois mandaram dizer a Jezabel: - Nabote foi morto a pedradas. Logo que Jezabel recebeu o recado, disse a Acabe: - Nabote morreu. Agora vá e tome posse da plantação de uvas que ele não quis vender a você. Logo que soube que Nabote estava morto, Acabe foi até a plantação de uvas e tomou posse dela.” (I Reis 21:11-16)

Literalmente, há gente para tudo nesse mundo:

  • Há quem autorize o mal que o outro concebeu apenas para obter algo que deseja.
  • Há quem se valha da fraqueza moral da autoridade para satisfazer os seus desejos mais íntimos, como se prestasse um favor à autoridade e em nome da autoridade.
  • Há quem obedeça a ordens absurdas para demonstrar fidelidade, sem questionar a legitimidade ou a finalidade, independente do mal que daí se desdobre.
  • Não seja assim conosco, irmãos.

Muito cuidado com quem ordena, não de si mesmo, mas sempre em nome da autoridade superior. Esse vassalo se escuda na imagem do rei para realizar intentos que são seus - e não da autoridade mencionada.

Muito cuidado com o rei que se confunde com o próprio reino. Reis passam, reinos permanecem. Às vezes, não se consegue distinguir claramente entre a vontade do rei e a necessidade do reino. Para alguns reis megalômanos, isso é tremendamente conveniente. Luis XIV, rei da França, afirmou do alto de sua megalomania e soberba: “O Estado sou eu”. Sua segunda geração acabou guilhotinada anos depois, com o advento da Revolução Francesa.

Concluindo, algumas reflexões, recebidas diretamente da escrivaninha de um amado amigo e pastor, que me concedeu estudar comigo este texto:

Para os líderes:

  1. Nem todo ajuntamento de líderes do povo de Deus (Israel) é convocado com motivos santos.
  2. Nem toda convocação que um líder recebe é para ser aceita de imediato. Procure-se saber os reais motivos de sua existência.
  3. Nem toda mulher em autoridade é Jezabel, mas se alguém tem uma Jezabel sobre si, saiba discernir suas ordens para não fazer-se cúmplice e alegar "obrigação por sujeição".
Para os “Nabotes”:

  1. Nem todos sabem receber um "não" em seus planos para "o reino".
  2. Nem todos que te oferecem um lugar de honra desejam realmente te honrar.
  3. Nem todos os que te acusam tem reais motivos para fazê-lo; às vezes são apenas "ecos" de outra voz.
Para os “Acabes”:

  1. Nem todos em posição de "rei" têm capacidade para reinar.
  2. Nem todo desejo do líder máximo de alguma instituição é apropriado ou aprovado por Deus. Ás vezes é apenas "birra de criança mimada".
  3. Nem tudo que te trazem como "oferta" foi conseguido de maneira lícita aos olhos de Deus.
Que DEUS nos abençoe. Amém.

Entre tomates e jaboticabas



Creio que todo obreiro tem o direito de reavaliar quais tarefas devam ser mantidas, remanejadas ou removidas de sua agenda na obra. No entanto, creio que deva haver um critério, especialmente quanto ao que se vai deixar de fazer, em função de quem ordenou que fosse feito - se a vontade humana ou o propósito divino.

Uma delas é a literatura. Escrever é semelhante a selecionar sementes no celeiro da Palavra. Escrever e publicar é semear as sementes selecionadas. Por analogia, quem semeia tem algumas alternativas, a partir de então:

Semear e cuidar do campo: regando, removendo as ervas daninhas, protegendo as sementes dos passarinhos, protegendo os brotos do sol forte e da chuva torrencial, até que venham as flores e em seguida os frutos, para que então os colha e deles usufrua. Colher frutos aqui demanda trabalho árduo e tem alto custo de manutenção. No entanto, aqui chora-se menos pela perda da colheita.

Semear e abandonar o campo: deixando que a Natureza se encarregue de selecionar quais sementes serão engolidas por pássaros e quais germinarão; quais serão cozidas pelo sol forte ou encharcadas pela chuva torrencial; quais brotarão e serão sufocadas por espinheiros ou morrerão de inanição devido à terra rasa e pedregosa, até que as restantes sobreviventes venham a florescer e em seguida frutificar, para que as pragas e animais maiores então selecionem quais frutos restarão para serem colhidos por quem quer que esteja passando e atente para os frutos ali pendendo, em tempo de colheita. Colher frutos aqui é arte da sorte e tem baixo custo de manutenção. Aqui não é justificável chorar pela perda de uma colheita da qual não se cuidou para que outro fosse o resultado.

De uma forma ou de outra, o semear gera frutos. Poucos ou muitos, mas gera. Já disseram, semear é opcional - colher é obrigatório. É certo que quem planta tomates os vê frutificar mais rápido e com bem menos trabalho do que quem planta jaboticabas. Talvez por isso - pelo trabalho e tempo necessários - o tomate seja mais barato que o mesmo peso em jaboticabas, que levam nada menos que 40 anos para começar a frutificar.

Portanto, quem semeia tomates não pode se surpreender com a rapidez com que os frutos surgem, às vezes antes mesmo que se esteja pronto para colhê-los - e se acabe por desperdiçá-los e perdê-los. Quem semeia tomates deve estar preparado para a rápida colheita demandada. Quem semeia vastas extensões de rápida colheita precisa de ajudadores ou perderá grande parte da safra. Também não pode demorar a colher ou verá a safra fenecer à medida que se adia a colheita.

Da mesma forma, quem semeia jaboticabas não deve reclamar da demora dos frutos. Talvez eles não lhe surjam em vida, mas somente para a fortuna dos seus descendentes. Quem semeia jaboticabas deve estar preparado para sucessivas podas, remoção de parasitas e fungos que crescem nos troncos da árvores, ano após ano, sem que uma frutinha sequer ecloda. Quem planta jaboticabas não pode se afastar muito tempo do pomar, ou cai na situação de abandono de campo, ou seja, um dia volta e constata que alguém tomou conta do pomar no lugar dele. Mas tanto esmero é sempre premiado. O certo é que os frutos vem e serão colhidos por alguém.

Quando se abraça o ministério da Palavra, abraça-se também a missão de multiplicar esta Palavra entre os povos da terra. Se em dado momento há profusão de pregadores, autênticos ou medíocres - e estes virão, é fato - deveríamos exultar o tanto que a Palavra já alcançou, ainda que com diversos entendimentos, sabores e dissabores. Paulo bem disse que importa que a Palavra seja pregada, ainda que de forma negligente, contanto que seja pregada.

Importa que a Palavra seja pregada via e-mail, nas praças, nos trens, nos ônibus, via Twitter, nos locais de trabalho, via blogs e webpages, via folhetinhos entregues de mão em mão pelas crianças nas ruas. Pergunte a essas crianças se elas se importam se aquele que recebeu o folhetinho vai realmente lê-lo ou amassá-lo e jogá-lo na calçada: a alegria está no distribuir dos folhetinhos a quem passa. Até porque folhetinhos largados nas calçadas já salvaram muitas vidas do inferno, não tenho dúvida quanto a isso.

Da mesma forma, a alegria do escritor deve ser escrever e publicar - não se preocupar se alguém vai ler agora ou daqui a dez anos aquilo que foi publicado. Assim como não se acende uma lamparina - palavra tão na moda ultimamente - para coloca-la debaixo de um cesto, mas para coloca-la num lugar alto, onde os que caminham na treva possam vê-la e por ela se orientem, assim não se escreve um sermão ou ilustração para ser guardado numa pasta ou numa gaveta, mas para publica-la e torna-la disponível a quem dela necessita.

Irmãos, há mais de cinco anos fui convidado a escrever artigos de base cristã para este site cristão. Desde então, não deixo de publicar os textos, sem a menor preocupação sobre quem está lendo ou vai ler. Apenas prossigo escrevendo artigo após artigo, conforme o Espírito me convoca. Vez por outra, leitores me mandam e-mails agradecendo pelo alívio, conforto ou orientação recebidos através de um artigo que foi publicado lá atrás e eu já tinha mesmo me esquecido. Essas raras mensagens fazem valer 40 anos de espera pela brotação da jaboticaba. E olha que eu nem sou um apreciador de jaboticabas (as de verdade, não as textuais).

Amado obreiro, semeie sempre - esta é a nossa missão. Os frutos virão, no tempo certo.

E que DEUS nos abençoe e Seu Santo Espírito nos console, pois Seu Filho já nos redimiu. Amém.